12 de dez. de 2006

Ctrl+S - Estudo de caso

Nosso herói latino tentando, em vão, salvar mais um gringo do abismo social.

Background para entender a cena: Chris mora no mesmo andar e divide corredor comigo. Já perdi pra ele no poquêr, já ganhei dele no futebol, já dividimos táxi voltando da balada...

Eu (do lado do alemão, que agora além de vizinho no prédio, é no banco do ônibus): Fala Chris, tudo certo?

Alemão (mais sem graca que chucrute): Sim...

Eu(tentando de novo): Frio nesse país heim? Na Alemanha é assim também?

Alemão(chucrutando): Não...

Eu(insistente): Perguntei por que vou passar o ano novo em Hamburgo...

Alemão(só no chucrute): Hum...

Mais algumas tentativas e mandei o "Sou Brasileiro e não desisto nunca" às favas. Voltei pra insuperável 51a página de On the Road mandando o maldito Bávaro à merda. 30 intermináveis minutos de semáforos, paradas e silêncio ate o nosso ponto. Eu fingindo ler e pensando no diálogo passado e nas tantas vezes que já tinha feito qualquer coisa com o sujeito. Descemos e comecamos a andar lado a lado até o prédio. Ficou insuportável a quietude e, já no corredo, antes de abrir minha porta, tentei de novo:

Eu (é agora ou nunca, pra cima deles Brasil!): Ei, Chris, você mora perto de Hamburgo, cara? Talvez a gente possa se encontrar no ano novo...

Alemão: Eu sou de Hamburgo.


É, o filho da puta do alemão não era Bávaro.

Ctrl+S

Conhecer gente é complicado. Quanto mais no comeco mais foda é. No primeiro minuto do processo de transformar um desconhecido num conhecido (pra talvez depois transformar em amigo) qualquer deslize social, comentário ingênuo sobre a irmã ou casca de feijão grudada no centroavante pode colocar tudo a perder.

Depois de uma semana, pelo menos entre os daqui debaixo do Equador, é de bom tom permitir piadas sobre o nariz torto ou o andar esquisito. Em um ano, só não vale pasar a mão na bunda (ou vale, cada um é cada um).

Desde que mantenha-se uma regra básica no RPG de se conhecer gente: salvar o jogo.

Como é de conhecimento geral, traquejo social não é muito a cara dos gringos. Então, pra arrancar alguma coisa além do cordial de algum europeu precisa-se de muita paciência, malemolência baiana e gingado latino. No meu caso, aqui na Finlândia, poss falar que salvei um estoniano, um irlandês e um do Nebraska. E foi só. Tentei pegar mais uns e outros, mas eles tem essa mania de comecar o jogo sempre da primeira fase.

Você passa o dia inteiro com a figura. Vai jogar bola, almoca, joga pôquer e depois pega balada. Volta pra casa pensando que, pelo menos naquele mundo, você já coletou algumas armaduras, encantos e espadas mágicas. Mas, no outro dia, quando vai dar o Load, percebe que tudo oq foi conquistado à duras penas se perdeu no desencontro. O tapinha nas suas costas e a gargalhada que o cara deu, no fim da noite anterior ficaram na memória (que já não ajuda, prejudicada pelo álcool) e deram lugar à distanteza, a frieza nórdica e ao Celso Fred com as máscaras sociais.

Às vezes, no dia seguinte, fica só o nome. Mas como diria o Mano Brown, rapaz latino-americano apoiado por mais de 50 mil manos, "O nome é só um detalhe, o nome é só um nome".

Salvem o jogo, gringos. É chique, tendência e, pelo menos nos trópicos, tá usando...