A árvore havia nascido há um bom tempo. Não foi na frente de uma casa, nem na frente da outra. Nasceu bem entre as duas. Mas não exatamente entre as duas, já que nasceu para lá do muro. Ela ficava ali, dividindo a calçada que está na frente de uma casa da que está na frente da outra. Nasceu mais ou menos na época em que comecei a trabalhar no salão.
Ninguém nunca havia dado muita atenção a ela. Como não tinha dono nem estava no terreno de ninguém, era ninguém quem cuidava da árvore. Porém, mesmo assim ela insistia. Não sabiam se era limoeiro, se era laranjeira. Era tão pouca a atenção que davam à árvore que nem era possível dizer qual o fruto que ela dava.
Eu, que trabalho do outro lado da rua, bem de frente para a árvore, também nunca reparei muito nela. Mas já explico o motivo: se eu ficasse olhando pra árvore, o bigode do cliente sairia torto, uma costeleta sairia maior que a outra, poderia até acabar tesourando uma orelha. Aí a notícia se espalha e eu perco a clientela. Agora, o pessoal do outro lado da rua, esses nunca entendi por que não olhavam para a árvore.
Vivia um velho em cada uma das casas. Dois velhos com muito em comum além da árvore que dividia suas calçadas. Ambos já na última idade, com pouco com que se animar e muito do que reclamar. De bom, os dois tinham pequenezas: um deles, um cão, o outro, uma neta. Além do mesmo gosto pela torta que a mãe da menina fazia. De bom também, compartilhavam o barbeiro.
De ruim, compartilhavam um único e diametralmente oposto desgosto. Um, dos galhos à direita da árvore, que atrapalhavam a vista de sua janela. Outro, porque as folhas à esquerda caíam em sua varanda, obrigando-o a varrê-la todas as manhãs. Quando um dos dois aparecia, fosse cabelo ou barba, eu já sabia que o assunto seria um só: a árvore.
Numa quarta-feira bem cedo, chegou a equipe da prefeitura, chamada não se sabe por quem. O velho caminhão azul estacionou exatamente na frente da árvore, dividido: cabine na frente de uma casa, caçamba na frente da outra. Percebi porque, apesar de eu já haver descido para o salão, não havia ainda barba para fazer.
Os velhos, que muito tinham em comum, olharam cada um por sua janela. Viram, como quem não vê, os galhos da árvore caindo um a um. Primeiro os da esquerda, depois os da direita. O barulho da serra não fez o cão latir nem a neta chorar. Ainda dormiam.
Com a árvore morta e o caminhão da prefeitura longe, os dois agora compartilhavam uma dura e única calçada à frente, dividida ao meio pelo buraco que antes era árvore. Sem a árvore, o velho da casa da direita tinha vista livre para a rua. O velho da casa da esquerda tinha a varanda livre das folhas. Eu, que nada tinha contra a árvore, achei que o outro lado da rua havia ficado estranho, vazio.
Algum tempo depois, percebi que, ao retirar-se a árvore da qual nenhum dos dois era dono, os dois velhos passaram a compartilhar muito mais que a antiga antipatia pela finada. A primeira mudança que senti foi aqui no salão, onde começaram a compartilhar o silêncio.
Passaram a dividir também o incômodo: um por ter uma neta presa ao sofá, sem árvore para brincar. Outro por ter um cão se aliviando na parede da casa de seu dono.
Vi que compartilhavam também as cortinas da sala fechadas: o da direita por achar a rua cinza demais, o da esquerda por não precisar mais patrulhar as folhas que caíam na varanda.
Passaram a compartilhar inclusive o desejo pela antiga torta de maçã que fazia a mãe da neta, e que sempre levava um pedaço para o velho dono do cão. A maçã do supermercado tinha outro gosto, vazio como a nova calçada. A vontade da torta até eu compartilhei, pois vez ou outra recebia um agrado da confeiteira.
Finalmente, entendi que já compartilhavam algo que surgiu no peito de cada um. Algo que às vezes era nostalgia, às vezes parecia ser angústia. Um sentimento que, se não era grande, era presente.
Descobriram que compartilhavam uma saudade. Da árvore que, em segredo, costumavam compartilhar.
Crônica escrita 'on demand' para concurso que certamente me presenteará com milhões de dólares, premiação esta que culminará com minha aposentadoria e subsequente sumiço da face da Terra. Adeus!
4 de set. de 2008
Meio a Meio
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